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Encontro que reuniu psicólogos da arbitragem de futebol brasileira em Belo Horizonte.

 

Camilla concluirá o curso de psicologia (UFG) ainda este ano e se prepara para o trabalho junto a todo o quadro de árbitros goianos.

Psicólogos que trabalham com arbitragem em todo o país.

Entrevista Especial  – Camilla Baptista

“Me chamam de discípula da Doutora Marta em Goiás

Ela faz estágio há três anos com a psicóloga da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Marta Magalhães, participa de encontros nacionais sobre o assunto e acaba de ministrar disciplina de psicologia aplicada a arbitragem para os novos árbitros do curso de formação.

 

  1. De onde veio o interesse pela psicologia do esporte e especificamente o de trabalhar junto aos árbitros de futebol?

Sou estudante de psicologia, 9º período, na Universidade Federal de Goiás (UFG). Interessei pela área ao assistir a palestra da Doutora Martha Magalhães durante pré-temporada da arbitragem goiana. Desde então, comecei estágio com ela, já há três anos. Lá acompanhei a realização de exercícios cuidadosamente preparados dentro do campo, divididos em quatro partes em que se trabalhava o lado psicológico e o social dos árbitros como fundamentais.

  1. Como funciona o estágio? O que você pôde aprender neste período de mais de três anos?

São poucos encontros presenciais. Mas, nos comunicamos todos os dias com reuniões pela internet, via Skype, geralmente depois das nove da noite ou trocamos mensagens de whats app e e-mails.

Me chamam de discípula da Doutora Marta em Goiás. Ela é referência no assunto, praticamente fundou a psicologia na arbitragem de futebol no Brasil. Leva essa bandeira, há doze anos. Tem acesso livre na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), bom relacionamento com todo o quadro de arbitragem, dados e noções de como está o condicionamento físico e a parte social dos árbitros.

Aprendo muito com a troca de experiências e levarei o conhecimento por toda a vida, como por exemplo, a integração do árbitro como ser social, com personalidade, a família, a história. Aprendi que devemos trabalhar a integração dos quatro pilares, mental, social, técnico e o físico e que isso funciona como uma mesa, onde é preciso ter as quatro pernas para que ela se sustente.

  1. Qual o principal desafio que você percebeu com relação ao trabalho com os árbitros?

O foco tem que ser maior no lado social. O desafio é que eles trabalham em equipe. E as vezes, não entendem isso. Tem o árbitro que deve estar em contato o tempo todo com os assistentes e o quarto árbitro e vice-versa. Se um deles fizer algo erro, reflete no trabalho de todo mundo. Falta esta integração. Quando se é escalado, vale o nome, individualmente falando. É o árbitro tal que vai ser escalado, ou indicado para a CBF, FIFA, não é a equipe.

Talvez as Comissões de Arbitragem pudessem entender que determinado árbitro trabalha melhor com fulano, do que com outro, ciclano. É a importância do sociograma dentro da arbitragem. Não importa se o árbitro está bem na parte física e técnica se a psicológica e social não vão bem. Com relação ao quadro nacional, também têm as questões culturais, onde há muitas diferenças na maneira de trabalhar, gestos, sotaques, comunicação entre os árbitros nos vários cantos do país.

4- Você participou recentemente de um encontro de psicólogos que trabalham com arbitragem de futebol?

Sim, gostei muito. O encontro foi realizado entre os dias 14 e 16 de abril em Belo Horizonte. Lá tivemos várias palestras com nomes que são referências na psicologia do esporte, Marisa Marcunas, mestre em Educação Física, Luciana Angelo, doutora em ciências do esporte, Evandro Peixoto,  doutor em psicologia, além da troca de experiências com psicólogos de onze estados brasileiros e eu, estudante, por enquanto, e estagiária. O próximo será no Rio de Janeiro em setembro, com o foco maior no conhecimento sobre as regras do jogo e com certeza será bem interessante.

  1. O presidente do Sindicato dos Árbitros de Futebol do Estado de Goiás (Safego), Edson Antônio de Sousa, nos informou que em breve, você irá trabalhar com todo o grupo de árbitros, tanto do quadro nacional, quanto o local. Como será este trabalho?

O primeiro passo será consolidar um questionário para gente ter dados sobre todo o quadro de árbitros.  Meu trabalho será prioritariamente em grupo e individualmente, alguns casos que mais precisem, ou podemos encaminhá-los para tratamento em planos de saúde ou na rede pública. Será um grande avanço para a categoria, investir no meu trabalho, o de uma psicóloga.

Percebo que o foco tanto da CBF, quanto da Federação Goiana de Futebol (FGF) é voltado para o alto rendimento, para resultados. Já o Sindicato tem a preocupação com o lado pessoal, de unidade do grupo, de conquistas e crescimento da categoria. Mas, algo que é interessante, há uma integração muito boa entre eles, mesmo com focos e atuações diferentes.

6-Você ministrou aulas de psicologia para os novos árbitros que estão no curso de formação. Como foi a experiência e qual o perfil deles?

Já sou licenciada em psicologia e realizei o sonho de ministrar aulas e a experiência foi muito boa. O ideal seria trabalhar no mínimo 20 horas com eles, mas a disciplina do curso teve 10 horas de duração, o que garantiu uma noção da psicologia.  Com relação a notas, apliquei uma prova e realizei uma gincana com eles, onde dividi a turma em grupos com perguntas sobre o conteúdo das aulas integrando os quatro pilares.

Quanto ao perfil, eles se diferem dos outros pelo começo de carreira, enquanto os que já estão no quadro são mais maduros e experientes. Apesar de muitos já atuarem em jogos das ligas e campeonatos amadores.  São bastante motivados, buscam a se tornar árbitros de futebol, dedicados, tem aqueles que treinam todos os dias, cuidam da alimentação, de se aprimorar tecnicamente e possuem grande entusiasmo nas aulas do curso.